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Edição 116 - Talento transformador

Cadeias Produtivas da Mandioca, da Aqüicultura e do Palmito começam a mudar vidas em cidades do Baixo Sul da Bahia.

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Marlene Lopes ◦ texto
Christian Cravo ◦ fotos

Cadeias Produtivas começam a
mudar vidas no Baixo Sul da Bahia

Madalena Silêncio Andrade, agricultora no município de Presidente Tancredo Neves, no Baixo Sul baiano, sorri ao pensar que não vai ter de assistir à partida de mais um filho para a capital. Na família de Francisco dos Santos, de Nilo Peçanha, o entusiasmo é com a construção de uma casa. Fábio Ribeiro, morador de Cairu, orgulha-se de poder ajudar a mãe na criação dos irmãos mais novos.

A realização desses sonhos vem das Cadeias Produtivas da Mandioca, do Palmito e da Aqüicultura, que compõem o Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável – DIS Baixo Sul, levado à região pela Fundação Odebrecht em parceria com o Governo Federal e o Governo da Bahia, com a participação da Associação dos Municípios do Baixo Sul (Amubs) e do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia (Ides).

Com o programa, as etapas de produção, beneficiamento e comercialização nas cadeias produtivas passaram a ocorrer de forma articulada. Na engrenagem antiga, a peça de menor valor era o agricultor. Na visão atual, ele integra o sistema na condição de cooperado, liderando os negócios de produção e beneficiamento. Para a comercialização, contará com o apoio de um grupo varejista, que integrará o programa como Parceiro Social.

Na Cadeia Produtiva da Mandioca, conduzida pela Cooperativa de Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves (Coopatan), os agricultores viram sua lucratividade aumentar em 20% com a venda de raízes. “Já melhoramos o preço de R$ 100 para R$ 120”, diz satisfeito o Líder da Cadeia Produtiva, Marcelo Abrantes. Esse resultado é decorrente da parceria com a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias e do investimento em tecnologia propiciado pelo programa.

O modelo prevê o combate ao desperdício pelo aproveitamento total dos recursos produtivos. A fábrica de farinha, amido e polvilho doce e azedo processará até 200 t/dia de raízes, sem geração de refugos. A folhagem, rica em proteína, já passou por teste na Unidade de Beneficiamento de Resíduo e servirá de insumo à indústria de ração animal, podendo ser usada na Cadeia Produtiva da Aqüicultura. Já a manipueira, sumo poluidor, irá para uma lagoa de decantação, sendo reaproveitada no processo industrial.

“Nossos filhos estão ficando aqui! Estão ficando aqui!” O entusiasmo de Madalena Andrade, de 51 anos, confirma a aposta na agricultura familiar. Ela e o marido, Deodete Andrade, lamentaram a partida do mais velho, de 21 anos, por não achar ocupação em Tancredo Neves. Mas ficam felizes porque mantêm os três filhos mais novos ocupados na terra.

Marivaldo da Silva superou a meta do programa de elevar a produtividade de 9 t para 20 t por hectare. Em vez de 12,5 mil pés apostou em 17 mil pés por hectare, que garantiram na mesma área a colheita de 42 t. Ele promete novidade para 2005: “Vou aproveitar as atuais condições e usar menos fósforo na adubação. Com a terra solta, a raiz terá mais espaço para crescer. Serão 50 t por hectare”.

A vida de Francisco dos Santos e dona Enedina Maria de Jesus começa a mudar. Presidente da Associação São Benedito e integrante da Cooperativa dos Produtores de Palmito do Baixo Sul (Coopalm), Francisco deixou de fazer biscates e agora cuida da própria terra, no município de Nilo Peçanha, onde as palmeiras de pupunha já exibem as hastes das quais será extraído o palmito. “Passei a ter confiança.”

O destino do palmito é a Ambial Agroindústria, que passa a integrar esta Cadeia Produtiva absorvendo 100% da produção de 63 cooperados nos municípios de Camamu, Maraú, Igrapiúna, Nilo Peçanha, Taperoá e Valença. A certeza da venda tranqüiliza Francisco quanto ao pagamento do financiamento pelo Banco do Nordeste. “Quero poupar e pagar sem aperto”, antecipa o produtor.

Para Adailton Barbosa, Líder da Cadeia Produtiva do Palmito, o imediatismo dá lugar ao planejamento: “A idéia é fazer do produtor um empresário rural”. Segundo Barbosa, em 2005 serão 488 ha plantados, incluindo áreas em Piraí do Norte, Tancredo Neves e Ibirapitanga. Já está pronta a infra-estrutura da Biofábrica de Plântulas de Pupunha, que vai garantir mudas de boa qualidade, sem espinhos e livres de doenças.

A Cadeia Produtiva da Aqüicultura guarda uma singularidade em relação às de mandioca e palmito. Em vez de proporcionar a reestruturação de uma atividade consolidada, convida pescadores a guardar anzol e rede e criar tilápias marinhas em tanques-rede e ostras em lanternas no estuário de Cairu.

O Líder, Roque Fraga, à frente da Cooperativa Mista de Pescadores, Marisqueiros e Aqüicultores do Baixo Sul (Coopemar), comemora os resultados. “Concluímos a fase de capacitação de 60 famílias que receberão módulos individuais com 12 tanques de tilápias”, relata. A produção dessa etapa já serviu à venda de 4 t para a empresa portuguesa Totalmar, que fez o peixe criado nas águas de Cairu chegar às prateleiras da rede francesa de supermercados Auchan.

A unidade fabril já tem garantidos os recursos para compra de equipamentos e desenhadas as linhas de produção de peixe, moluscos e crustáceos. Além das tilápias – filetadas ou em posta e processadas no sistema just in time (a demanda do mercado é que define a produção) –, a fábrica vai processar catados.

Gilmar Palma, 34 anos, integra o projeto. Ex-pescador, tornou-se um criador de ostras e tilápias e, reconhecido pela Coopemar como técnico, tem renda mensal de R$ 500. Os resultados animam e sua casa, em construção, já tem o primeiro piso pronto para receber o andar superior, que será alugado. Fábio Ribeiro lembra sem saudade o tempo em que catava lambreta e vendia a atravessadores por R$ 0,30 a dúzia. Depois de vencer a etapa de capacitação, tornou-se, aos 22 anos, Vice-Presidente da Coopemar e técnico na criação de tilápias. “A vida melhorou. Hoje ajudo minha mãe a criar meus irmãos, invisto na casa e planejo me casar.” A piaçava e o agro-ecoturismo irão respaldar as próximas Cadeias Produtivas planejadas para o Baixo Sul. De acordo com Luciano Bonaccini, do Ides, como nas demais iniciativas, o desenvolvimento das Cadeias Produtivas não acontecerá de forma isolada. Ele se dará junto com o desenvolvimento dos capitais ambiental, social e humano.


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