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Edição 121 - Uma razão para reacender a esperança

Inaugurada em Tancredo Neves, no Baixo Sul da Bahia, a maior fábrica de farinha do estado, fundamental para dar segurança aos agricultores da região.

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Edição 121 - Uma razão para reacender a esperança
Fábrica de Farinha - Cadeia Produtiva da Mandioca

Texto: Bruno Galba


Fotos: Eduardo Moody 
 
A cada manhã, o produtor rural Bonifácio Ferreira dos Santos, sua mulher e seus seis filhos recomeçam a rotina de arrancar da terra a mandioca que sustenta os custos do lar. Após a colheita, as raízes são levadas para uma casa de farinha – relativamente próxima à residência e até bem equipada, perto do padrão artesanal encontrado no município de Presidente Tancredo Neves – onde toda a família descasca, mói e ensaca o produto final, envolta no leve pó branco que flutua por todo o lugar.

Em um mês de trabalho, Bonifácio produz 2,5 toneladas de farinha de mandioca, das quais 15% ficam com o dono da casa de farinha. O restante da produção é vendido nas cidades vizinhas próximas ao preço médio de R$ 0,20 o quilo. “Nunca vi tempo tão ruim. O adubo está caro e a farinha só vende muito barato”, afirma Bonifácio, que cultiva mandioca desde os sete anos. Descontando o transporte e o reinvestimento no plantio, sobra pouco mais de R$ 300,00. ”Não dá para sobreviver só disso não. Tem dias que a gente mete a mão no bolso e não acha um real”, lamenta.

Quem vê a situação de Bonifácio acostuma-se a associar a fabricação de farinha a trabalho de pobre. “É essa imagem que nós queremos mudar com a Fábrica de Farinha da Coopatan”, afirma Josias Nunes, Presidente da Cooperativa de Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves (Coopatan). A Coopatan é o coração da Cadeia Produtiva da Mandioca, que integra o Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Baixo Sul da Bahia – DIS Baixo Sul.

A fábrica foi inaugurada no dia 26 de agosto, com a presença do Governador da Bahia Paulo Souto, diversas autoridades locais e uma multidão de pessoas ansiosas pelo início do funcionamento da maior indústria de farinha da Bahia, capaz de produzir até 20 t de farinha de mandioca por dia. Para toda essa mandioca ser processada, 41 pessoas trabalham em três turnos nos 10 processos de beneficiamento.

Jussivan Sampaio Soares, o faz-tudo da fábrica, comemora o novo emprego: “Não sou produtor, mas estou feliz de saber que o meu trabalho vai ajudar a melhorar a vida dos agricultores”. Jussivan é responsável pelo setor de embalagens, mas acaba ajudando todo o mundo, no descasque da mandioca, que “é trabalho para mulher, homem é muito ‘agreste’ para fazer direito”; na prensagem da mandioca, para retirar a água retida na raiz; na trituração e peneiragem da massa; na torragem do pó; e por fim, no ensacamento da farinha em sacos de 1 e 50 kg. Jussivan não reclama de tanto trabalho. Ao contrário, sente-se feliz pela oportunidade de servir. “Todo o mundo aqui tem carteira assinada, o que nos dá uma segurança, um salário melhor que a média”, afirma. “Isso também motiva a gente a trabalhar.”

Mais motivados que os empregados da fábrica, estão os produtores associados à Coopatan. “A fábrica reacendeu a esperança dessas pessoas”, afirma Genival Menezes de Melo, responsável pela fábrica. “Mas também é preciso tomar cuidado com a euforia. Não vamos mudar o mercado da mandioca da noite para o dia”, pondera.

A precaução de Genival tem fundamento. Como toda commodity, a mandioca também tem ciclos de valores, e o momento atual não é favorável. “Há uma oferta excessiva de farinha no mercado, o que fez o valor cair muito, prejudicando a todos, mas principalmente ao pequeno produtor”, explica Genival. “A fábrica dá uma segurança a mais para o cooperado, porque o produto dele vai chegar ao mercado com um preço mais competitivo, por causa do alto valor agregado, e ainda eliminamos a figura do atravessador”, completa.

Para dar o retorno desejado ao produtor a cooperativa precisa conquistar espaço no mercado. A Coopatan já fechou o primeiro contrato de comercialização de farinha com a Empresa Baiana de Alimentos, órgão do Governo Estadual responsável pela rede de supermercados populares Cesta do Povo. A farinha Primeira da Bahia será vendida com um valor em torno de cinco vezes maior do que o que Bonifácio consegue nas feiras populares.

O objetivo da Cooperativa é, em um ano, criar condições para que cada unidade-família tenha um incremento de R$ 1.600,00 na renda anual por hectare cultivado. “Esse é apenas o primeiro passo. Quando tivermos a Fábrica de Fécula de Mandioca e a Unidade de Beneficiamento de Ingredientes de Ração funcionando a todo o vapor, a renda anual por hectare deve passar os R$ 6 mil”, afirma Josias Nunes, mantendo acesa a esperança de fazer com que a farinha de mandioca vire coisa de rico.


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