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Edição 124 - As casas dos jovens empresários

Casas familiares Rural, do Mar e Agroflorestal integram conhecimento tradicional e técnico, adaptando o ensino à realidade e aos recursos naturais disponíveis.

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Luzinete e Luzimar do Rosário

Texto: Vivian Barbosa


Fotos: Almir Bindilatti e Eduardo Moody

Olhos fixos na lousa. Atenções voltadas para a explicação do monitor. Eles acabaram de chegar da aula prática, no campo, onde instalaram um viveiro de seringueira. Agora é hora de revisar tudo o que aprenderam durante a semana de alternância na Casa Familiar Rural (CFR), criada há três anos no município de Presidente Tancredo Neves, Baixo Sul da Bahia.

São 35 jovens, entre 14 e 21 anos, que formam a terceira turma da CFR. Antonio Júnior, 16, é um deles. O sonho de ser engenheiro agrônomo o motivou a participar da seleção para entrar na Casa. “Aqui eu tenho certeza de que meu futuro vai ser bem melhor. Vou repassar a tecnologia que aprendo para minha comunidade. Agora já sei que, se for fazer algo amanhã, devo planejar hoje.”

Formar jovens empresários rurais, educando-os para a vida e pelo trabalho, é a missão da CFR, que tem hoje 105 alunos. Robson Kisaki, engenheiro agrônomo, é um dos monitores da Casa e está envolvido com o projeto desde sua criação. “Ver nossos meninos e meninas falarem em orçamento, cronograma físico e análise de mercado, e calcularem previamente seu investimento e retorno é nossa maior vitória”, diz Robson. Outra grande conquista é o índice zero de evasão escolar.

Mais duas Casas Familiares fazem parte do Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Baixo Sul da Bahia – DIS Baixo Sul: a Casa Familiar do Mar (CFM), criada em 2004, e a Casa Familiar Agroflorestal (CFAF), que começou a funcionar em março de 2006. A metodologia utilizada nasceu na França, em 1937, e é baseada na Pedagogia da Alternância, que mescla períodos de uma semana de atividades na Casa Familiar e duas semanas de aplicação supervisionada dos conhecimentos na propriedade da família ( www.mfr.asso.fr).

Rosana Nepomuceno, 22 anos, é aluna da CFM, com sede em Ituberá. No segundo ano de atividades, ela e mais 35 jovens estão sendo formados para ser empresários aqüícolas. A seleção de uma nova turma está programada para o segundo semestre, totalizando 70 jovens beneficiários.

Como em todas as Casas Familiares, busca-se integrar o conhecimento tradicional e o técnico, adaptando o ensino à realidade e aos recursos naturais disponíveis. “Além de aprender sobre aqüicultura, temos aulas de criação de pequenos animais, artesanato e horticultura. Sempre pensando no desenvolvimento sustentável e nas futuras gerações, buscando renda sem degradar o meio ambiente”, conta Rosana.

O cultivo de hortas comunitárias também é realizado pelos alunos em conjunto com os moradores da região. Rosângela Ché é pedagoga e monitora da CFM. Ela conta que ações de paisagismo foram efetuadas, com o apoio de técnicos, em dois pontos da comunidade de Torrinhas, local das aulas práticas. “Aulas para confecção de objetos de decoração, pinturas em cangas e guardanapos para cozinha já oferecem outra fonte de renda para os jovens.” As vocações do grupo são exploradas e incorporadas às temáticas de aula.

Importantes parcerias têm tornado possível o desenvolvimento desses projetos, como explica Clóvis Faleiro, Diretor-Executivo da CFR e CFM. “Investimos muito na relação com os parceiros. Buscamos agregar mais e mais valor às nossas ações, para que seus reflexos reverberem nos jovens e na comunidade”. Apóiam as Casas Familiares Rural e do Mar: Ministério da Agricultura, Caixa Econômica Federal, Controladoria-Geral da União, Ministério do Planejamento (Superintendência do Patrimônio da União), Secretaria Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-BA), Embrapa, Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri-BA) e Sebrae-BA. “Até a sustentabilidade dos projetos há muito por fazer, e com a contribuição de nossos parceiros não há dúvidas de que realizaremos nossos objetivos”, afirma Clóvis.

Educação na floresta

Trançando a fibra da piaçava, Luzimar do Rosário faz belas peças de artesanato sentada em frente de sua casa. Integrante da comunidade do Jatimane, remanescente quilombola do município de Nilo Peçanha, Luzimar e sua família vivem da extração da piaçava, produzindo vassouras, pentes para quiosques, bolsas, bandejas e porta-copos.

Sua filha, Luzinete do Rosário, 21 anos, vislumbra um futuro melhor. Ela ingressou na primeira turma da Casa Familiar Agroflorestal (CFAF), ligada à Cadeia Produtiva da Piaçava. A Casa atende 30 jovens de comunidades afrodescendentes dos municípios de Ituberá, Nilo Peçanha e localidades próximas, na região do Baixo Sul da Bahia. “Meu pai extrai a piaçava e as mulheres a limpam. O dinheiro que recebemos é pouco. Quero aprender novas formas de valorizar nosso trabalho e ajudar minha família e a comunidade”, revela a jovem. Antes de fazer parte da CFAF, a família de Luzinete foi convidada a visitar a Casa Familiar Rural. “Já saí de lá amando o projeto”, afirma Luzimar.

Funcionando provisoriamente em um prédio cedido por comodato pela Prefeitura de Ituberá, com o apoio da Secretaria de Turismo do município, a CFAF será responsável pela transferência de tecnologias agroflorestais para os moradores da região, tornando o trabalho menos pesado e mais rentável. O desafio, segundo Augustinho de Carvalho, Diretor-Executivo do projeto, é agregar valor ao produto piaçava, gerando oportunidades de trabalho e renda dignas. “Queremos aproveitar toda a planta e transformá-la em riqueza para possibilitar uma remuneração melhor a essas famílias. Vamos unir o conhecimento tradicional ao técnico-científico e qualificar os jovens, alavancando o desenvolvimento de toda a comunidade.”

Cultivos diversos são incorporados ao cotidiano dos alunos, com o ensino de novas práticas de manejo. “O objetivo é criar alternativas de trabalho e renda, não apenas relacionadas à cultura da piaçava, e garantir uma maior estabilidade econômica. Vamos introduzir a criação de peixes nativos e abelhas sem ferrão, que produzem mel medicinal com valor de mercado muito maior que o tradicional”, explica Augustinho.

A origem quilombola dos jovens é abordada nos períodos de alternância, quando são desenvolvidas ações que contemplam especificidades dessas comunidades como oficinas de dança, músicas típicas, artesanato e culinária. André Carlos, 19 anos, está animado para aprender mais sobre a cultura de seus avós. “Antes de entrar na CFAF, eu não conhecia a história dos quilombolas. Tudo o que sabia é que lá moravam escravos, mas aqui estou começando a ter mais informações e repasso isso para todos.”

O plano para 2007 é que a CFAF atenda também ao município-arquipélago de Cairu, que, juntamente com o de Nilo Peçanha e Ituberá, são responsáveis por 60% da produção nacional de piaçava. Mais jovens serão beneficiados e, junto com eles, suas famílias e sua comunidade. Luzimar do Rosário confessa que sente muitas saudades da filha durante a semana em que ela fica na Casa Familiar. “Mas sei que lá o futuro dela será bem diferente, vai mudar para melhor. E o que é bom para ela, é bom para todos nós.”

“Oportunidades concretas de trabalho e renda”

“O modelo já está testado e hoje mostra resultados positivos. A experiência é muito rica e deveria ser adotada em outras regiões, como forma de se promover a mudança de gestão dos negócios do campo e introduzir, ao mesmo tempo, novos conceitos tecnológicos e ambientais.”
Roberto Rodrigues, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

“O que mais chama a atenção é a possibilidade que os jovens têm de sonhar com uma vida melhor, sem precisar se mudar para as cidades em busca de emprego. Eles servem de referência para seus pais no processo de mudança tecnológica.”
Márcio Portocarrero, Secretário de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

“A expansão desse modelo vai representar uma elevação significativa da economia rural dos pequenos municípios beneficiados, impedindo a migração das populações e multiplicando as oportunidades de trabalho e de crescimento econômico.”
Waldir Pires, Ministro da Defesa

“Estamos atentos a esta parceria com a Casa Familiar Agroflorestal, pois acreditamos no potencial de empreendedorismo que nossos jovens irão adquirir, o que só trará bons frutos e condições de melhoria de vida para nossa população.”
Iolanda Sepúlveda, Secretária de Turismo de Ituberá

“Um trabalho como o da Casa Familiar Agroflorestal é muito importante para nossa região. O jovem já sai de lá com uma perspectiva de geração de renda. E também ganha uma visão diferente, pensa mais na sua comunidade.”
Querino dos Santos, Prefeito de Nilo Peçanha

“As Casas Familiares Rural e do Mar trarão oportunidades concretas de trabalho e renda, viabilizando a permanência dos educandos e suas famílias em suas propriedades, garantindo melhores condições de vida e maior produtividade, e agregando conhecimento aos elos da cadeia produtiva.”
Professor Astor de Castro Pessoa, membro do Conselho Estadual de Educação da Bahia


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