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Edição 129 - De frente para a realidade

Por meio do Projeto Rondon, estudantes e professores universitários de todo o Brasil desenvolvem ações voluntárias em 10 municípios do Baixo Sul da Bahia.

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Texto: Vivian Barbosa

Elenildes Santana recebe rondonista


Fotos: Luciano Andrade

Elenildes Santana mora há oito anos com seus quatro filhos em uma casa de pau-a-pique de apenas um cômodo, sem água encanada e banheiro, localizada às margens de um mangue, na zona rural do município de Ituberá, no Baixo Sul da Bahia. Aos 36 anos, ela está desempregada e sua única fonte de renda são as laranjas e mangas que vende. E foi da janela de casa, vendendo frutas, que Elenildes percebeu rostos desconhecidos nas redondezas: eram os jovens universitários que integram o Projeto Rondon e ali estavam para investigar a realidade local, a fim de propor soluções para a melhoria de vida daquela comunidade.

Cíntia Gonçalves, estudante de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo, quis saber a história de Elenildes, que não hesitou em narrar suas dificuldades. “Minha rotina é muito difícil. Mas, graças a Deus, consegui juntar dinheiro para comprar um carro-de-mão e sair por aí vendendo minhas frutas”.

De 23 de janeiro a 6 de fevereiro, 160 estudantes e professores universitários, oriundos de diversas instituições de ensino superior de todo o país, desenvolveram, voluntariamente, ações em 10 municípios da região do Baixo Sul da Bahia: Cairu, Camamu, Ibirapitanga, Igrapiúna, Ituberá, Maraú, Nilo Peçanha, Presidente Tancredo Neves, Piraí do Norte e Taperoá. O Projeto Rondon promove iniciativas que tragam benefícios duradouros para as comunidades, concentrando-se nas áreas de cidadania, bem-estar, gestão pública e desenvolvimento local sustentável.

“Antes de vir para Ituberá, fizemos um estudo prévio sobre o município, mas sentimos que era preciso esse contato com a comunidade para entender efetivamente de que eles necessitam”, disse Cíntia. “Vamos fazer um diagnóstico ambiental e ajudar as comunidades que vivem às margens de manguezais a viverem de forma sustentável, conservando seu ecossistema.”

Um pouco de história

Aproximar a juventude universitária de comunidades carentes é a proposta do Projeto Rondon desde seu nascimento. Há 40 anos, em 1967, foi realizada a primeira expedição, com 28 estudantes e dois professores, que partiram do Rio de Janeiro em direção a Rondônia. Foi quando o projeto recebeu seu nome, em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. Em 1989, a ação foi extinta, para ser retomada apenas em 2004, pelo Presidente Luís Inácio Lula da Silva, atendendo a um pedido da União Nacional dos Estudantes (UNE).

A Operação Rondon 2007 foi coordenada pelo Ministério da Defesa e integrou cerca de mil “rondonistas” em ações realizadas simultaneamente em quatro pontos do Brasil: Amazônia Ocidental, Amazônia Oriental, Rio Grande do Sul e Nordeste. Este ano, o projeto contou com o apoio, entre outras instituições, da Fundação Odebrecht e do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul (Ides).

“Fui rondonista quando estudante e agora retorno como professora. Nosso trabalho aqui em Taperoá quer despertar na comunidade o espírito protagonista”, explica Iraíldes Torres, antropóloga da Universidade Federal do Amazonas. Cada município recebeu representantes de duas instituições de ensino superior: 12 universitários e quatro professores. As equipes são sempre multidisciplinares, envolvendo estudantes de Química, História, Engenharia, Comunicação, Serviço Social, Enfermagem, Medicina, Gestão Ambiental e Antropologia, entre outros cursos. Paulo César Mota, professor de Biologia da Universidade de Brasília, reforça essa multidisciplinaridade como uma das principais características do Rondon. “Chegamos em Taperoá com uma base conceitual rica, envolvendo estudantes de diversas especialidades, mas entendemos que a construção deve ser feita junto com a comunidade. Sem sensibilidade, de nada serve o conhecimento.”

Um pouco de esperança

Em Igrapiúna, a dona-de-casa Zildeja Mendes, 38 anos, mãe de cinco filhos, estava radiante. Eram só duas da tarde e ela já tinha assistido aulas de informática e artesanato e se preparava para o curso de culinária. Seu marido e o filho mais velho também fizeram os cursos de informática e agora aprendiam eletrotécnica. “Ouvi pelo rádio que o Rondon estava na cidade. Meu filho está tendo a oportunidade de aprender um novo ofício. Quem sabe não arruma um emprego?”, diz, esperançosa.

Para o General Celso Krause Schramm, Coordenador do projeto, o Rondon permite ao universitário inserir-se no processo de desenvolvimento sustentável da nação. “O projeto contribui para a formação acadêmica do estudante, proporcionando o conhecimento da realidade brasileira, incentivando o sentimento de responsabilidade social e patriotismo”, salienta.

“Estou entrando em contato com culturas diferentes e sei que isso só vai acrescentar à minha formação. A gente vem com idéia de que vai ensinar, mas acaba aprendendo muito mais”, afirma Karen Martins, 22 anos, estudante de enfermagem do Centro Universitário Hermínio Ometto (Uniararas), em Araras (SP). Concentrando seu trabalho em Igrapiúna, Karen acredita que o Projeto Rondon acaba sendo um diferencial para o estudante. “É algo que enriquece e com certeza nos tornará profissionais melhores. Quando temos o contato com comunidades tão diferentes, os horizontes se ampliam".

Universitários visitam projetos do DIS Baixo Sul

Aproveitando a presença dos rondonistas, os projetos que integram o DIS Baixo Sul abriram suas portas para receber universitários e professores. O objetivo foi mostrar o modelo de desenvolvimento integrado e sustentável que está sendo aplicado na região, por meio da união do primeiro, segundo e terceiro setores. Os rondonistas conversaram com jovens das Casas Familiares e cooperados das Cadeias Produtivas.

Quem esteve no Baixo Sul

Alunos e professores de diversas instituições de ensino superior visitaram os municípios da região

Cairu – Faculdade Jangada (SC) e Universidade Federal Fluminense (RJ).
Camamu - Universidade de Brasília (DF) e Universidade Estadual do Centro Oeste (PR).
Ibirapitanga - Escola de Enfermagem/USP (SP) e Universidade Severino Sombra (RJ).
Igrapiúna - Universidade Federal de Juiz de Fora (MG) e Centro Universitário Hermínio Ometto/Uniararas (SP).
Ituberá - Faculdade de Tecnologia e Ciência (BA) e Universidade Federal do Espírito Santo (ES).
Maraú - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP (SP) e Universidade Católica de Brasília (DF).
Nilo Peçanha - Universidade FUMEC (MG) e Universidade Federal do Triângulo Mineiro (MG).
Piraí do Norte - Centro Universitário Monte Serrat (SP) e Universidade do Vale do Paraíba (SP).
Presidente Tancredo Neves - Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP) e União de Ensino do Sudoeste do Paraná (PR).
Taperoá - Universidade Federal do Amazonas (AM) e Universidade de Brasília (DF).


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