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Edição 131 - Onde se aprende que tudo é possível

Casa Jovem, projeto que faz parte do DIS Baixo Sul, consolida-se como complexo educacional e atende hoje mais de 1000 alunos.

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Edição 131 - Onde se aprende que tudo é possível
Família Oliveira: todos estudam na Casa Jovem

Texto: Vivian Barbosa


Fotos: Eduardo Moody

Aos 6 anos, Daniele Oliveira foi com a família morar nas Fazendas Reunidas Vale do Juliana, no município de Igrapiúna, no Baixo Sul da Bahia. Seus pais se mudaram porque conseguiram uma oportunidade de trabalho. Preocupados com a educação dos filhos, logo matricularam a menina e seus irmãos na escolinha que ficava na fazenda. O tempo passou, Daniele cresceu.

E a escola também. O que começou como um modesto espaço de ensino, tornou-se um complexo educacional que já atende mais de 1000 alunos. O Projeto Casa Jovem, liderado pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) de mesmo nome, é apoiado pela Fundação Odebrecht e faz parte do Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Baixo Sul da Bahia – DIS Baixo Sul. Além das comunidades de Igrapiúna, beneficia também moradores de Piraí do Norte e Ituberá. A Escola Municipal Casa Jovem (EMCJ) e o Colégio Estadual Casa Jovem (CECJ) compõem as instalações do projeto. O CECJ teve sua nova sede inaugurada em dezembro de 2006.

“Temos aulas de informática, excelentes professores, salas amplas, quadra poliesportiva e biblioteca. A estrutura, que já era boa, ficou ainda melhor”, diz Daniele, hoje com 16 anos. Seus irmãos Adilson, 15, Vinícius, 12, Diego, 9, e Denise, cinco, também estudam na Casa Jovem. Os dois mais velhos freqüentam, junto com ela, o CECJ, que atende jovens do ensino fundamental (5ª a 8ª série) e médio (1º ao 3º ano). Os dois irmãos mais novos de Daniele estão na EMCJ, que tem turmas para educação infantil, alfabetização, ensino fundamental (1ª a 4ª série) e educação de jovens e adultos.

Ao verem todos os filhos na escola, os pais de Daniele, o vaqueiro Daniel Oliveira, 45 anos, e a auxiliar de serviços gerais Joseni Oliveira, 33, decidiram voltar para a sala de aula. Eles fazem o curso noturno de educação para adultos. Joseni já sabia escrever, mas tinha dificuldade para ler. “Já eu, não lia nem escrevia”, confessa Daniel. “Há um ano me matriculei. Tive boas oportunidades na vida que perdi por não ter estudo. Hoje, filho meu não falta aula pra ficar em casa. Tem que estudar.”

A mãe Joseni está satisfeita com as mudanças na estrutura física das escolas. “As reformas feitas no municipal e a construção de uma sede para o estadual melhoraram muito a vida dos meus meninos”, conta. Ela parou de estudar muito jovem, quando seu pai abandonou o lar e ela, a filha mais velha, teve de ajudar a mãe a criar seus irmãos. “Para os meus filhos, eu procuro dar o que eu não tive: uma família unida e estudo.”

O Prefeito de Igrapiúna, Francisco Roma, é entusiasta da parceria entre o poder público municipal, a Fundação Odebrecht e a Oscip Casa Jovem. “A escola é uma referência não só em Igrapiúna, mas em todo o Baixo Sul. Os alunos da zona rural nunca imaginaram ter uma estrutura como esta”, afirma. A Prefeitura assume, entre outras responsabilidades, a contratação dos professores e as despesas com merenda escolar e fardamento. Recentemente, custeou parte da reforma da Escola Municipal. A Oscip investe na capacitação de professores, em alojamentos, transporte e no apoio pedagógico, levando especialistas para orientarem o corpo docente.

“Eu estudava em uma escola particular, na cidade de Gandu, e a estrutura daqui é muito melhor. Tenho aulas até de educação artística. Quero ser bióloga e acho que esse colégio vai me preparar para isso”, acredita Tais de Carvalho, 14 anos, aluna da 7ª série. Os alunos recebem uma educação adaptada à realidade do campo e uma formação cidadã, que os estimulam a serem donos de seu próprio destino.

Até 2008, deve ser aprovado pela Secretária de Educação da Bahia o plano de curso para o ensino profissionalizante na Casa Jovem. O Secretário Estadual de Educação, Adeum Sauer, explica que este é o próximo passo para garantir mais oportunidades aos jovens da região. “A implantação de um curso de aqüicultura, por exemplo, está sendo estudada por nossa equipe, aproveitando as potencialidades locais.” O Secretário visitou, em maio, as instalações do Colégio Estadual e ficou impressionado com o trabalho que está sendo desenvolvido. “Podemos fazer muito mais, como Estado, quando a comunidade está integrada e tem iniciativa. Fica mais fácil para o poder público fazer a sua parte.”

Descobertas num ambiente vivo e dinâmico

Início de tarde. Subimos as escadas da Escola Municipal Casa Jovem. Vozes de crianças ecoam como se estivessem dando as boas-vindas. Elas cantam a música que a professora escreveu no quadro-negro. São meninos e meninas que fazem a 1ª série do ensino fundamental. Eles têm entre 7 e 10 anos e sempre cantam uma canção antes da aula começar. Como um aquecimento para a tarde que se inicia.

Dentro da sala, nada de arrumação em fileiras. As crianças sentam em grupos, ao redor de grandes mesas. Os “cantinhos de aprendizagem” se espalham por todos os lados. Para estudar português, fantoches e livros com historinhas infantis. No cantinho de geografia, mapas. Bonecos representam o corpo humano no espaço de ciências. A matemática fica fácil com ábacos, brinquedos em formas geométricas e quebra-cabeças. As crianças constróem seu conhecimento por meio da experiência direta, da procura e da descoberta, tornando o ambiente vivo e dinâmico.

No pátio da escola, um cartaz traz os dizeres: “O passo, eu faço”. Esta frase reflete a essência da metodologia Escola Ativa, utilizada para o ensino de crianças de 1ª a 4ª séries na EMCJ. O modelo vem da Colômbia, onde é chamado de Escuela Nueva, e tem como princípio o processo educacional centrado no aluno, respeitando-se seus diferentes ritmos e necessidades. Além da reorganização física da sala, com os cantinhos de aprendizagem, a metodologia inclui o uso de livros didáticos específicos e a participação dos alunos e comunidade na gestão da escola.

“Esta metodologia foi criada para combater a reprovação e o abandono da escola pelos alunos da zona rural”, esclarece a professora Eliane Santana, que iniciará uma pós-graduação em Psicopedagogia, custeada pela Casa Jovem. “Trabalhamos com algumas crianças com dificuldades para ler ou escrever. Acredito que essa especialização me permitirá ajudá-los a desenvolver seu potencial.”

Aroldo dos Santos tem 15 anos e está na 4ª série. Em abril, foi eleito pelos colegas Presidente do Governo Estudantil. Sua missão: trabalhar junto à diretoria para trazer mais benefícios aos alunos, organizados em comitês. Cada turma da Escola Municipal tem seis comitês, responsáveis por discutir temáticas como saúde, recreação e esportes. A gestão é compartilhada. “Foi legal participar de uma eleição e poder entender, na prática, o que é a democracia”, diz Aroldo.

O jovem Aroldo representa os interesses de crianças como a pequena Milena Santos, 7 anos, uma das vozes cantantes da 1ª série. Todos os dias, ao chegar à sala, ela vai até o painel da chamada e desenha um trator no quadrado que representa seu nome e a data. Assim, ela mesma deixa registrado que não faltou àquela aula. Por que um trator? Ela explica: “Esse é meu símbolo. Eu escolhi porque meu pai dirige um trator. Eu também sei dirigir”, revela a menina, seguida por risos de toda a turma.

Exército participa de ações

Cooperação mútua para tornar possíveis ações integradas que beneficiem a comunidade do Baixo Sul da Bahia. Com esta finalidade, o Comando do Exército, por intermédio da 6ª Região Militar, e a Casa Jovem assinaram um Acordo de Cooperação, no dia 22 de maio, em Salvador. As Ações Cívico-Sociais (Aciso) do Exército serão realizadas, trimestralmente, nas instalações da Casa Jovem, no município de Igrapiúna.

Os atendimentos beneficiarão os alunos da Casa Jovem, suas famílias e a comunidade com serviços médicos de pediatria, ginecologia e odontologia, entre outros.

Palestras levarão aos jovens noções de civismo e cidadania. “Participando deste projeto, ajudamos centenas de crianças que serão o nosso amanhã”, disse o General Gilberto Arantes, Comandante da 6ª Região Militar. Cerca de 40 militares deverão compor os efetivos de cada Aciso.


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