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Edição 135 - Na trilha da educação

Com a inauguração da Casa Familiar Rural de Igrapiúna, as quatro cadeias produtivas do DIS Baixo Sul passam a ter uma casa familiar a elas vinculada

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O guia florestal Arnaldo Neves orienta jovens da nova Casa Familiar Rural de Igrapiúna: exercitando o corpo e a mente para a conservação da natureza

O guia caprichava no tom de voz. Era preciso que o último dos 30 jovens, no fim da fila, pudesse ouvi-lo com precisão. A proposta

era simples e provocadora. “Vamos percorrer uma trilha de 4 km no meio da floresta. Peço a vocês que façam silêncio, não só para ouvir o que tenho a dizer, mas, sobretudo, para que possam sentir este ambiente. Ouvir os sons dos pássaros, o estalar das folhas e dos galhos que forram o chão.” Quem orienta a turma é Arnaldo Damião Neves, 23 anos, que há três trabalha como guia florestal da empresa Michelin, dona da reserva ambiental onde estamos.

“Trilha das Andorinhas” é o nome do trecho a ser desbravado. Aprender sobre o ecossistema existente na floresta que cerca a cachoeira da Pancada Grande, no município de Ituberá, era o desafio daquela aula de educação ambiental. Ao mesmo tempo, os jovens eram estimulados a entender a importância da conservação da natureza, exercitando o corpo e a mente.

Tudo era novo para Adelvam Assunção, 19 anos, chamado carinhosamente de Preto pelos membros da comunidade de Mato Grosso, onde mora. Ele nunca teve aulas no campo, para aprender de forma prática aquilo que havia estudado em sala. A turma que o acompanhava também era uma grande novidade. Aquela era a primeira semana de internação na também nova Casa Familiar Rural de Igrapiúna (CFRI), inaugurada em novembro de 2007. “Tenho expectativas de obter mais conhecimentos e fazer grandes amizades”, conta Adelvam, seguindo mata adentro.

Com esta Casa Familiar, o Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Baixo Sul da Bahia (DIS Baixo Sul), apoiado pela Fundação Odebrecht, alcança uma importante meta: agora, todas as quatro cadeias produtivas integradas ao programa têm uma Casa Familiar a elas vinculada. É o conhecimento técnico a favor da melhor qualidade de produção. Na CFRI, é a experiência da Cooperativa dos Produtores de Palmito do Baixo Sul da Bahia (Coopalm) a serviço dos jovens.

Em alguns momentos da caminhada pela trilha, Adelvam pára e toca em troncos de árvores que muitas mãos dadas não conseguem abraçar. Ele parece contemplar o espetáculo que a natureza oferece. Quando não está ajudando seu pai na roça de mandioca, o jovem dedica seu tempo livre a duas ações sociais. A primeira é o Grupo Natura Arte, associação que ele ajudou a criar e hoje reúne 18 jovens. “Conservar a natureza é a nossa missão. Orientamos a comunidade a praticar o reflorestamento nas margens dos rios e não fazer queimadas”, explica. O segundo projeto é chamado Arca das Letras. Adelvam cuida, em sua casa, de um acervo de 360 livros, doados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. “A comunidade tem acesso a todas as obras de graça. Tem livro sobre agricultura, literatura, teatro”, conta, empolgando os colegas que estão próximos e desconheciam a iniciativa. “Preto, traz uns livros para nos emprestar na próxima semana de aula”, já pede um deles.

A trilha continua. Nem a fina chuva que insiste em cair desanima os jovens. Joel Espírito Santo, 18, é elogiado por um dos monitores da Casa e aplaudido pelos colegas. Ele encontrou um saco plástico na mata e rapidamente o pegou para jogar em um local apropriado. “Esse tipo de material não pode ser deixado na mata. Precisamos educar os turistas que vêm aqui”, observa. Wesley Freitas, 20, percebe o interesse de um grupo por uma rocha encontrada mais adiante e recorda: “É assim que começa o processo de formação do solo. Lembram que estudamos isso em sala ontem?” Respondendo corretamente a perguntas feitas pelo guia sobre os nomes das árvores pelas quais vão passando, diz Roseli Reis, 17: “Este é o palmito-juçara. A produção dele é extrativista. Por isso, o mais adequado hoje é o palmito de pupunha, que não desequilibra o meio ambiente”.

Chegando ao fim da caminhada, alguns estão cansados, mas todos se declaram realizados. Adelvam tem um dos sorrisos mais marcantes da turma. “Sempre tive vontade de estudar em um lugar do qual eu fizesse parte de fato. No futuro, vou olhar para trás e saber que contribuí de verdade para a formação de todos a minha volta.”

Proximidade filosófica

Além da cadeia produtiva do palmito, a cadeia da seringa também está diretamente ligada à nova Casa Familiar. Isso porque a CFRI nasceu como fruto de uma parceria entre a Fundação Odebrecht e o Grupo Michelin, um dos líderes mundiais no mercado de pneus, que possui, no Baixo Sul da Bahia, uma das seis agroindústrias de borracha natural no mundo. Gérard Bockiau, Diretor das Plantações Michelin da Bahia, afirma que a filosofia da Michelin e a da Odebrecht são semelhantes. “Temos também uma cultura que se preocupa com a formação do jovem. Por isso, decidimos apoiar esta Casa Familiar.” A Michelin investiu R$ 100 mil, em 2007, em construções e reformas, além de ceder um terreno de 10 ha para as instalações da CFRI.

A prefeitura de Igrapiúna também apóia o projeto, responsabilizando-se pelo transporte dos jovens que moram no município. “A Casa está preparando os empresários rurais do futuro. Quando eles concluírem a formação, serão jovens diferenciados e nosso município só tem a ganhar”, declara Francisco Roma, prefeito de Igrapiúna. O Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul (Ides), o Governo do Estado da Bahia e as prefeituras de Nilo Peçanha e Camamu fecham o núcleo de apoiadores.

A Casa Familiar Rural tem laboratório de informática, salas de aula equipadas com data show, minibiblioteca, alojamentos e refeitório. São vizinhos o Centro de Estudo da Biodiversidade da Michelin e a Ambial, indústria de beneficiamento de palmito, parceira da Coopalm. Um coordenador pedagógico e dois monitores – uma bióloga e um engenheiro agrônomo – dão suporte diário aos jovens.

Na grade curricular, permeiam temas como administração rural, solos e beneficiamento, além de noções sobre cooperativismo, educação ambiental e sexualidade. “Nossa missão é oferecer educação profissional aos jovens da zona rural, preparando-os para se tornarem agentes de desenvolvimento local”, diz Soraya Mesquita, Líder Executiva do projeto. A energia e a vontade de adquirir novos conhecimentos dos 30 meninos e meninas que compõem a primeira turma da Casa Familiar Rural de Igrapiúna mostram que essa missão não será difícil de cumprir.


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