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Edição 139 - Uma câmera na mão e muitos sonhos a realizar

No Baixo Sul da Bahia, jovens se capacitam para utilizar instrumentos de comunicação e elaborar conteúdos de interesse da comunidade.

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Marina de Jesus e Erivaldo da Silva: alertando sobre agressões ao meio ambiente

texto: Mariana Menezes


fotos: Eduardo Moody

Uma câmera fotográfica e uma filmadora. Isso era tudo que os jovens Erivaldo da Silva e Marina de Jesus precisavam para realizar seu trabalho. Bastaram alguns minutos de caminhada em meio ao que restou da Mata Atlântica no município de Nilo Peçanha para entender sua motivação. “Resolvemos gravar um vídeo-documentário para mostrar às pessoas o que elas estão fazendo. Essa região era de mata virgem e foi destruída por causa da extração de madeira”, lamenta Marina.

O vídeo-documentário é um dos sete trabalhos de conclusão do curso de formação da Rede de Comunicadores Voluntários. Uma iniciativa do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia (Ides), o curso capacitou 19 jovens beneficiados pelo Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Baixo Sul da Bahia, apoiado pela Fundação Odebrecht.

Ao longo de um ano, os jovens foram habilitados para a utilização de instrumentos de comunicação e elaboração de conteúdos de interesse da comunidade. Oficinas ministradas por profissionais voluntários propiciaram a formação técnica em língua portuguesa, expressão oral, corporal e escrita, além de noções básicas de comunicação.

A Rede tem como objetivo aprimorar a visão crítica dos participantes sobre sua realidade, ao mesmo tempo em que estimula o protagonismo juvenil no processo de transformação social. O principal meio de disseminação e multiplicação das boas práticas idealizadas pela comunidade é o jornal Diga! Baixo Sul. O periódico, publicado a cada dois meses, é alimentado pelos próprios comunicadores voluntários. Identificadas as vocações de cada um, assumem responsabilidades como definição de pautas, redação de matérias e produção de fotografias.

“O Diga! Baixo Sul é um exemplo de como a comunicação pode ser utilizada como instrumento de desenvolvimento comunitário”, diz Liliana Leite, Líder Executiva do Ides. Segundo ela, o jornal é um canal de comunicação direta com a população local por meio do qual o jovem se comunica com a alma. “Questões como resgate às origens, valores éticos, a prática da democracia participativa e o protagonismo comunitário são trabalhadas em rede, de forma integrada”, complementa.

Rogerio Arns, especialista em Desenvolvimento Comunitário e idealizador da Rede de Comunicadores, explica que o objetivo não é formar jornalistas, nem escritores, mas sim agentes de desenvolvimento local com facilidade para se comunicar e articular parcerias. “Um bom produtor rural, que tenha habilidade para comunicação, conseguirá mobilizar mais pessoas do que aquele que é bom com a terra, mas, por exemplo, não consegue participar de uma reunião, não tem aptidão para escrita e acaba se fechando em si mesmo”, afirma Arns.

Pilares do futuro

Dia de lua minguante e maré seca. Onde deveria haver lama, vê-se uma mistura de terra e areia. Manguezal a perder de vista. Entre galhos retorcidos e raízes expostas, buracos no solo indicam a existência de mariscos e crustáceos. Mas Seu Cosme avisa: “Em abundância aqui, só aratu”. Morador do município de Igrapiúna, no Baixo Sul da Bahia, Cosme da Silva, 67 anos, que já morou em outras localidades da região, tem na memória o passado próspero da Mata Atlântica, uma época em que “animais de caça” e “muita madeira boa” não faltavam. Seu Cosme é pai e entrevistado de Erivaldo, um dos jovens que está produzindo o vídeo-documentário, mas, acima de tudo, é sua razão de viver.

“Quando pensava que meu pai já teve cinco hectares de terra e que hoje a gente luta por um canto para viver, tinha vontade de desistir dos estudos e procurar um emprego. Hoje, sei que para devolver ao meu pai o sorriso que tinha no rosto, que já não vejo há muito tempo, tenho de estudar”, diz Erivaldo. O jovem que sonha em ser agrônomo não espera na janela o tempo passar. A água salgada que parece faltar no mangue agora nasce de seus olhos e faz germinar a esperança de que dias melhores virão.

Erivaldo sabe que seu futuro é fruto das escolhas que faz no presente, e que, por isso, deve aproveitar todas as oportunidades que surgirem para melhorar sua vida e de sua família. “Com a Rede de Comunicadores Voluntários, estou aprendendo coisas novas. Ser comunicador, para mim, é conhecer pessoas e interagir com elas, e essa troca é o que amplia nosso conhecimento”, conclui.

Meu lugar é aqui

Rogerio Arns argumenta que a comunidade deve ser o sujeito de seu próprio desenvolvimento, e não o objeto. Nesse cenário, os jovens, futuros líderes locais, surgem como atores estratégicos do processo em função da sua capacidade de aprender e de realizar. É o caso de André Carlos Conceição, 21 anos. “Quando começaram as primeiras oficinas da Rede de Comunicadores, encarei o desafio como mais uma forma de levar conhecimento à minha comunidade”, lembra.

Desde os 10 anos, quando teve os primeiros contatos com o rádio, André sonhava em trabalhar com comunicação. Enquanto a oportunidade de fazer o tão desejado curso de locução não aparece, ele encontra outra forma de contribuir para que a informação circule no município onde mora. Em seu projeto de conclusão do curso, o jovem morador da comunidade de Lagoa Santa, em Ituberá, está resgatando tradições da região para elaborar um calendário anual com destaques para as datas comemorativas e as manifestações culturais locais.

Liliana Leite salienta que a Rede de Comunicadores é um exemplo de que boas práticas fortalecem a comunidade e suas raízes. “Os projetos desses jovens são ações simples, realizadas de maneira voluntária e que não necessitam de muitos recursos, mas sim de articulação.”

André Carlos tem um longo trabalho pela frente, mas apoio não lhe falta. Além de contar com a colaboração de Josenildo Normandia, Secretário de Cultura do Município de Ituberá, os moradores de Lagoa Santa o ajudam contando histórias e narrando fatos de suas próprias vidas que ficaram no passado, mas ainda estão presentes em suas lembranças. “É gratificante ver que a população e o governo local estão dispostos a ajudar. Isso é o reconhecimento do nosso trabalho”, comemora André.

Para se sentir plenamente realizado, além de fazer o curso de locução, André pretende permanecer em sua comunidade e multiplicar o que aprendeu. “Quero trabalhar com comunicação e passar os conhecimentos adquiridos. Com organização e determinação, conseguimos concluir as etapas, uma de cada vez”.


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