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Edição 139 - Todos os nossos assuntos são emergenciais

O combate à pobreza está no centro das atenções de Norberto Odebrecht, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Odebrecht.

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Norberto Odebrecht: Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Odebrecht

Texto: José Enrique Barreiro
Fotos: Eduardo Moody

Particularmente, a pobreza do Baixo Sul da Bahia, onde a Fundação Odebrecht participa do Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável dessa região, formada por um mosaico de Áreas de Proteção Ambiental, mais conhecidas pela sigla APA. A APA do Pratigi, com 161 mil 
hectares (dos quais 63 mil são remanescentes da Mata Atlântica), é a maior delas, e a que tem recebido dedicação especial de Norberto Odebrecht, em esforço voltado para construir uma vida humana mais digna para as 83 mil pessoas que ali vivem.

Nessa luta, sua visão vai além do trabalho da Fundação e alcança toda a Organização Odebrecht: “Nossos empresários-parceiros realizam obras e viabilizam condições financeiras para que nossos clientes possam executar essas obras; precisamos incorporar a isso o desafio de contribuir para a organização social de regiões pobres em que atuamos, principalmente na América Latina e na África”.

Solicitado a desenhar seu futuro pessoal, Norberto Odebrecht revela que fez seu último Plano de Vida e Carreira em 1987 e que, agora, está às voltas com um novo plano, cujo marco é o ano de 2011. A partir daí, quer iniciar uma nova etapa de vida e trabalho, cujo roteiro prefere não antecipar. Não se furta, porém, a revelar o que planeja para a Fundação Odebrecht: “Estamos concluindo um modelo que nos capacitará a exportar tecnologia social para onde os líderes da Organização Odebrecht desejarem”. Faz questão de observar apenas um detalhe: “Mas sem abandonarmos o Nordeste”.

Nesta entrevista, ele fala sobre as bases que norteiam a atuação da Fundação Odebrecht no Baixo Sul da Bahia e revela a dramaticidade da exclusão que ali ocorre. Para enfrentar esse quadro, reivindica tratamento especial e urgente aos programas de inclusão social produtiva no Brasil: “Trabalhamos com a pobreza e suas perversas conseqüências, por isso todos os nossos assuntos são emergenciais”.

Infográfico: Desenvolvimento Sustentável no Baixo Sul da Bahia

Odebrecht Informa – O documento “Rumo ao Futuro da APA do Pratigi”, do qual o sr. é um dos signatários, fala da necessidade de uma “vanguarda includente” no Brasil. Do que se trata?
Norberto Odebrecht – Vanguarda Includente é uma expressão que tomei de empréstimo ao professor Mangabeira Unger, que hoje é Ministro de Estado. Refere-se a um grupo pioneiro, precursor da inclusão social que o Brasil e todos os países afetados pela pobreza estão a exigir.

OI – Já se pode perceber o trabalho desse grupo no Brasil?
Norberto Odebrecht – Sim. O que estamos fazendo no Baixo Sul da Bahia, por exemplo, é parte desse esforço. Há diversas iniciativas acontecendo em outras regiões do país, protagonizadas por outras pessoas e entidades não-governamentais, em associação com empresas privadas e o poder público, cada uma com seu modelo, mas todas com o mesmo propósito.

OI – Qual propósito?
Norberto Odebrecht – Fazer com que a vida humana futura se torne mais digna. E para isso é preciso encontrar e construir um modelo de vida solidário, produtivo, no qual todos estejam incluídos e justamente beneficiados; um modelo que equilibre os recursos da natureza (água, solo, flora e fauna) com as necessidades humanas e seus negócios.

OI – Qual a urgência disso?
Norberto Odebrecht – Total e absoluta. Estamos falando de combater a pobreza e os males dela decorrentes. E quando se trata de pobreza, tudo é emergencial. Por isso, a vida humana digna que almejamos depende de ações imediatas, iniciadas hoje, agora. A pobreza, a ignorância, a fome e a exclusão tornam a vida humana insustentável; transformam o homem, por falta de alternativa, em um feroz predador ambiental. Esta situação não pode persistir, precisa ser reconhecida como emergencial, porque atinge a toda a humanidade e toda vida no globo terrestre.

OI – E qual o caminho para transformar essa situação?
Norberto Odebrecht – Nós, na Fundação Odebrecht, entendemos que o caminho é o do desenvolvimento harmônico dos quatro capitais: o humano, o social, o produtivo e o ambiental. Eles estão necessariamente articulados e não podem ser pensados nem trabalhados de forma isolada. Para desenvolver o capital humano, é preciso construir oportunidades educativas, de modo que as pessoas possam se preparar para a vida e para o trabalho e se tornar agentes de seu próprio destino; o capital social se desenvolve por meio de organizações solidárias e produtivas, que resultem em benefícios justos e sem exclusão; já o capital produtivo, se bem estruturado, é capaz de gerar trabalho digno e renda justa de forma contínua; e o domínio do capital ambiental permite a compreensão e o respeito ao semelhante e ao meio ambiente, que é o nosso maior patrimônio coletivo. A isso chamamos Desenvolvimento Integrado e Sustentável.

OI – São quatro vertentes e todas elas bastante abrangentes. Onde está o foco do trabalho?
Norberto Odebrecht – O foco está na unidade-família e sua organização em cooperativas, permitindo à população economicamente ativa, carente de trabalho produtivo, encontrar oportunidades de trabalho e renda.

OI – Por que exatamente esse foco?
Norberto Odebrecht – No caso da família, porque é a célula básica da convivência, da organização e da perpetuação humanas. Nossa missão, desde que a Fundação Odebrecht foi criada, em 1965, tem sido a de oferecer apoio às famílias para que possam formar novas gerações estruturadas e preparadas para crescer. No que diz respeito às cooperativas, elas são a base do modelo de desenvolvimento sustentável que promovemos.

OI – De que forma as cooperativas são a base desse modelo?
Norberto Odebrecht – As cooperativas têm as melhores condições de absorver os excluídos. São elas que “comandam o espetáculo”, pois toda riqueza vem da produção. Se não há capital produtivo gerando riqueza, todo o esforço seguinte não se realiza, já que é preciso financiar as escolas e criar as condições para evitar agressões à natureza. A chave de tudo está nas cooperativas.

OI – De que forma as cooperativas podem evitar agressões à natureza?
Norberto Odebrecht – No Brasil, as matas são derrubadas diariamente. Sabe por quê? Porque o agricultor é pobre, não tem condições de ganhar a vida de forma sustentável, então sai destruindo matas nativas para plantar banana e outras coisas. Mas isso, além de errado, é desnecessário, pois temos plenas condições de construir oportunidades de trabalho e de geração de renda que não agridam a natureza e que se reproduzam em escala social.

OI – E a educação, de que modo está apoiando o desenvolvimento do capital produtivo no Baixo Sul?
Norberto Odebrecht – A educação que promovemos está voltada para a produção. Como disse antes, nosso foco está nas cooperativas agrícolas e também nas aqüícolas (aliás, uma das grandes chances do Brasil está na vastidão de suas águas continentais). Por isso, a educação oferecida em nossas Casas Familiares é mais prática que teórica; é associativista e cooperativista, coerente com a vocação do Estado da Bahia; é voltada para especializações técnicas; é valorizadora do jogo ganha-ganha; e é voltada para valores éticos, limites, deveres e direitos, ou seja, para a cidadania.

OI – E como essas cooperativas se inserem na economia?
Norberto Odebrecht – Por meio de cadeias produtivas que as integram com os setores secundário e terciário da economia. Ao incluírem famílias que antes não produziam – que estavam excluídas, portanto, desse processo essencial da vida humana digna –, as cooperativas trouxeram aquelas famílias para a formalidade, o que permitiu sua inserção articulada na economia. Nas cooperativas, os produtores têm amparo técnico, jurídico e administrativo para produzir as matérias-primas que levam ao consumidor final.

OI – E vendem para quem?
Norberto Odebrecht – Esse era outro problema de exclusão que eles enfrentavam: impedidos pelos atravessadores, não conseguiam levar seus produtos ao consumidor final. Tivemos que trabalhar em cima disso, para permitir que o ciclo se completasse com a venda das matérias-primas ao setor terciário sem a participação de intermediários – em melhores condições, portanto, para os produtores. Hoje, nossas cooperativas já vendem seus produtos diretamente a lojas e redes varejistas de alimentos, como a Wal-Mart, em âmbito nacional e mundial, e a Perini e a Ebal, no mercado baiano.

OI – Vendem a matéria-prima em estado bruto?
Norberto Odebrecht – Não, aí é que está. As cooperativas estabeleceram parcerias com agroindústrias, e antes de levar os produtos ao mercado, agregam valor a eles, qualificando-os por meio de tecnologia de ponta e certificação. O que fizemos foi promover uma aliança estratégica do setor primário com o setor secundário, em um primeiro momento, e com o terciário no momento seguinte. Assim, sem atravessadores, as cooperativas conseguem colocar diretamente na mão do consumidor final produtos certificados e corretos, seja do ponto de vista social ou ambiental.

OI – Qual o seu sonho em tudo isso?
Norberto Odebrecht – Meu sonho é a inclusão total, para que se chegue à sustentabilidade desejada, integral, vital, como a que vem sendo feita com os nossos assentamentos agrários. Não sei se você sabe, mas há pouco tempo o Ministro Luiz Marinho (ex-Ministro da Previdência Social) visitou a APA do Pratigi, onde verificou as condições em que se encontram as 262 famílias que ali assentamos. Ele disse que quer levar lá o Presidente Lula, pois – palavras dele – “nunca havia visto até então nenhum projeto de assentamento com o apoio da iniciativa privada”. Ele disse que faz questão de declarar isso.

OI – O sr. se sente de alguma forma gratificado pelo trabalho social que desenvolve?
Norberto Odebrecht – Quem tem o espírito do tempo não olha para si nem para trás: olha para a frente, ajuda a preparar as gerações futuras, trabalha em equipe para o bem da comunidade, não se sente melhor do que ninguém. Entre nós, não existem heróis, apenas gente que faz o que tem que ser feito hoje; gente que sabe que o futuro não aceita e não perdoa protelações nem omissões.


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