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Edição 156 - Achegue-se

Baixo Sul da Bahia, região onde vivem 285 mil pessoas, reúne paisagens exuberantes e um grande potencial econômico, turístico e cultural

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texto: Carlene Fontoura
fotos: Beg Figueiredo

Dona Celina com familiares na comunidade
quilombola de Boitaraca, em Nilo Peçanha:
“Meus antepassados construíram este lugar”

Um lugar calmo, com atmosfera familiar. Crianças que, no olhar, carregam liberdade e sonhos. Casas de arquitetura simples, mas encantadora. Esse é o cenário na comunidade quilombola de Boitaraca, localizada no município de Nilo Peçanha (BA). Os moradores dessa terra livre têm muitos motivos para não deixá-la. “Meus antepassados construíram este lugar. Nunca quis ir embora”, diz a matriarca Celina Neves Assunção, 74 anos, que se enche de felicidade quando recorda sua infância na comunidade.

A cerca de 80 km dali, encontra-se uma cidadezinha tranquila e rodeada de belas árvores. Em Ibirapitanga (BA) – palavra que significa “Pau-Brasil” em tupi-guarani –, os moradores orgulham-se de ver o progresso nas ruas, ladeiras e praças. “Nossa cidade era uma aldeia mal-arrumada. No período chuvoso, acumulava lama nas ruas. Hoje, a situação está bem melhor”, relata Altamirando Santos, 92 anos, que ostenta com orgulho a honra de ter sido o segundo prefeito do município.

Dona Celina e seu Altamirando são moradores antigos de suas comunidades e têm muitas histórias para contar sobre Nilo Peçanha e Ibirapitanga. Ambas fazem parte de uma mesma Área de Proteção Ambiental (APA) – a do Pratigi – e com outras nove cidades (Valença, Camamu, Ituberá, Presidente Tancredo Neves, Maraú, Taperoá, Cairu, Igrapiúna e Piraí do Norte) compõem o Baixo Sul da Bahia. Situada no leste da Bahia, a região abriga cerca de 285 mil pessoas, segundo o Censo Demográfico de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com solo rico e fértil, em que se cultivam mandioca, cacau, cravo, dendê, borracha, palmito, piaçava, guaraná e pimenta-do-reino, o Baixo Sul encanta por sua paisagem e por seu grande potencial econômico, turístico e cultural. A região também é composta de um mosaico de APAs que, além de Pratigi, abrange a do Guaibim, Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, Tinharé-Boipeba e a Baía de Camamu.

Uma das primeiras terras a serem povoadas no Brasil, o Baixo Sul tem singular valor na história do país. No período colonial, a região assumiu o desafio de abastecer a recém-fundada Salvador com gêneros alimentícios. Durante o processo de independência do estado, a Fortaleza do Morro de São Paulo teve papel fundamental como um dos pontos estratégicos para a defesa da Bahia. “Por causa de sua arquitetura, por muitos anos a Fortaleza conseguiu evitar ataques estrangeiros contra a capital. É um dos maiores fortes do Brasil”, salienta Francisco Santana, arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Tempos de recuperação
No século 20, após a Segunda Guerra Mundial, a desorganização agrícola, industrial e a estagnação tomaram conta da região. A recuperação só foi possível a partir de 1980, com o crescimento do turismo. Alguns pontos tornaram-se conhecidos em âmbito nacional e internacional, como as ilhas de Tinharé e Boipeba, em Cairu, a cachoeira da Pancada Grande, em Ituberá, e Barra Grande, na Península de Maraú.

Em 1999, a região passou a ser palco de diversas iniciativas fomentadas pela Fundação Odebrecht, decidida a atuar em locais com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). A princípio, o trabalho da Fundação era voltado à formação de jovens, mas logo veio a constatação de que isso não poderia acontecer de forma isolada, sendo necessária a integração com as famílias. Dessa forma, por meio do Programa de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Mosaico de Áreas de Proteção Ambiental do Baixo Sul da Bahia (PDIS), a instituição passou a incentivar ações educacionais aliadas à geração de trabalho e renda. Apoiando organizações da sociedade civil de interesse público (oscips) e cooperativas, o PDIS vem se consolidando como um agregador de ações de cunho social, econômico, humano e ambiental.

“A atuação, por mais nobre que seja, só se torna possível se realizada de forma sinérgica”, afirma Mauricio Medeiros, Presidente Executivo da Fundação Odebrecht. Por isso, o PDIS conta com parceiros de instâncias governamentais – federal, estadual e municipais – e da iniciativa privada. “O desafio é dar oportunidades às pessoas, força propulsora e criativa da região”, reforça Medeiros.

Memória e tradição
Pessoas como dona Celina também são beneficiadas pelos projetos apoiados pela Fundação Odebrecht. “No fim do ano, temos a Dança dos Velhinhos. Rapazes e moças se vestem como seus avôs e avós e saem como um cordão na rua, cantando e bailando”, ela explica. Essa dança, além de um divertimento, reflete as vivências cotidianas, em que os participantes recontam a vida das antigas senhoras da comunidade, com seu famoso samba de roda. Emocionada, dona Celina relembra e canta a canção: “No tempo da minha vó / mulé gostava de um só / usava trança e cocó / e não havia xodó”. Hoje, quem participa da dança são os mais jovens. Entre eles, Camila Neves Assunção, 22 anos, neta de dona Celina. “Nossa obrigação é valorizar a herança de nossos antepassados”, argumenta a ex-aluna da Casa Familiar Agroflorestal, uma das oscips apoiadas pela Fundação Odebrecht.

Além da Dança dos Velhinhos, outras manifestações destacam-se, como bumba-meu-boi, zambiapunga, os congos, as barquinhas e a chegança de mouros, assim como o festejo religioso de Terno de Reis. Antonia Francelina de Jesus Filha, 70 anos, dona Nininha, conhece bem a cultura local. Moradora de Cairu, ela tem o título de Mestra do Saber, por ter resgatado muitas tradições da região. Há anos, costura fantasias, e criou o primeiro grupo mirim da cidade, Os Conguinhos.

“Chamei as crianças para participar dos eventos porque elas ficavam soltas pelas ruas, muitas vezes com poucas roupas e até mesmo descalças. Estimulei uma campanha para doações de retalhos, material que usei para fazer as alegorias. Fizemos nossa primeira aparição em 2008, no Dia da Independência da Bahia, em 2 de julho. Foi um sucesso!”, conta, com alegria.

Agroecoturismo
É crescente o número de pessoas que, ao escolher um lugar para conhecer, busquem não apenas apreciar as belezas naturais, mas também vivenciar costumes e o modo de vida da população local. A Fundação Odebrecht, por meio do PDIS, vem estimulando no Baixo Sul o agroecoturismo, um modelo de turismo agrícola, ecológico e sustentável. “Estamos contribuindo para a geração de trabalho, renda e inclusão social, e para a valorização da cultura local”, diz Liliana Leite, Diretora-Executiva do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia (Ides), oscip que promove o turismo sustentável na região.

Conhecer o artesanato feito com fibra da piaçava é uma das atividades que estão no roteiro agroecoturístico do Baixo Sul, que contempla, principalmente, as comunidades quilombolas. “Ah, as mulheres fazem peças lindas!”, exclama dona Celina. Ela conta que busca na união com outros moradores o fortalecimento da economia local. “Queremos autonomia no nosso trabalho”, afirma.


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