08h13

Edição 161 - Trilhas para novos mundos

Roteiro Turístico Ecoétnico: um novo vetor de desenvolvimento para o Baixo Sul da Bahia

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texto: Gabriela Vasconcellos
foto: Almir Bindilatti

Juvenal Divino: “Enquanto caminho pela roça
vou falando sobre as diferentes culturas”

Em meio às belezas da Mata Atlântica, os cheiros se confundem: pés de tangerina e canela preenchem o ar e tornam a trilha ainda mais exuberante. Árvores seculares rodeiam cada passo, acompanhadas pelos cultivos de dendê e piaçava, característicos do Baixo Sul da Bahia. Nesse cenário, tem início o Roteiro Turístico Ecoétnico, que está sendo estruturado na região pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Baixo Sul da Bahia (Ides).

A proposta é que os visitantes sejam recebidos por agricultores como Juvenal Divino, morador da comunidade Rio das Matas, localizada em Taperoá (BA). Pequeno produtor, ele guia, há quatro anos, grupos interessados em conhecer modos de vida de populações rurais. “Enquanto caminho pela roça vou falando sobre as diferentes culturas, mostro na prática o conhecimento que tenho”, conta. Para Divino, o turismo é uma oportunidade de incrementar a renda da família. “Recebo uma diária e muitas gorjetas”, brinca.

O fim da trilha com o agricultor revela um presente: o Rio das Almas, que corre sem pressa pelos municípios baianos de Taperoá e Nilo Peçanha. Em suas águas, os turistas têm a possibilidade de praticar tirolesa e rafting (descida em corredeiras utilizando botes infláveis). O primeiro dos três dias de viagem que contemplam o roteiro, realizado em parceria com a agência Ativa Rafting e Aventuras, chega ao fim na pousada Rio das Matas, onde é possível dormir ao som dos pássaros.

Logo após o amanhecer do segundo dia, é o momento de começar a vivenciar a cultura local de Nilo Peçanha (localizada a 284 km de Salvador). A primeira parada é na sede da Cooperativa das Produtoras e Produtores Rurais da Área de Proteção Ambiental do Pratigi (Cooprap), que comercializa peças de artesanato, vassouras e biojoias produzidos com fibra de piaçava pelos moradores da região. Assim como o Ides, a Cooprap é uma instituição ligada ao Programa de Desenvolvimento e Crescimento Integrado com Sustentabilidade do Mosaico de Áreas de Proteção Ambiental do Baixo Sul da Bahia (PDCIS), apoiado pela Fundação Odebrecht.

A viagem segue. Na comunidade quilombola de Jatimane, os turistas têm a oportunidade de conhecer mais um pouco da rotina de trabalhadores da zona rural, como Miltaides do Rosário, nascido e criado ali. Dono de um restaurante às margens do Rio Jatimane, Miltaides oferece passeios de canoa e visitas a cachoeiras. “Organizando o turismo, sei que vamos crescer. Já recebi consultores do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para fazer o diagnóstico e levantar as nossas necessidades”, relata.

De acordo com Márcia Mattos, Líder da Aliança Cooperativa do Turismo do Ides, esse tem sido o papel da instituição. “Estamos apoiando as comunidades a articularem parcerias que contribuam para o aprimoramento do roteiro Ecoétnico. Buscamos cursos de qualificação profissional e apoio à comercialização. A ideia é podermos realizar as adaptações para atrair mais pessoas”, salienta.

A parceria com o Sebrae foi iniciada em 2011, quando o roteiro Ecoétnico foi selecionado pelo Projeto Talentos do Brasil Rural. A iniciativa é fruto da integração entre os Ministérios do Desenvolvimento Agrário, do Turismo e do Meio Ambiente, do Sebrae e da Agência de Cooperação Alemã, que está incentivando a inserção de produtos e serviços da agricultura familiar no turismo.

Zenilda do Rosário, também moradora de Jatimane, já conta com o apoio do Sebrae. A marisqueira, além de participar de capacitações, recebe consultoria para o seu Restaurante Quilombola Pedro Sorriso, nome dado em homenagem ao marido. Com isso, realizou mudanças na estrutura e na organização do estabelecimento. “Aprendi um pouco em cada reunião. Assim estamos virando referência na região. Muitos vêm de outros lugares para almoçar”, diz ela, que foi convidada pelo Sebrae para compartilhar sua experiência em um evento no Rio Grande do Sul. “Lá vou contar sobre o meu pirão, meu peixe defumado e minha moqueca, minhas especialidades.”

Após saborear os pratos produzidos por dona Nida, como é conhecida, o segundo dia do roteiro tem fim na Praia do Pratigi, localizada no município de Ituberá (BA). Com aproximadamente 15 km de extensão, a praia é quase deserta, ocupada apenas por algumas barracas.

Um novo olhar
Para dar continuidade à descoberta da cultura local, no terceiro e último dia o turista tem a oportunidade de visitar a sede do grupo folclórico Zambiapunga, ter aulas de percussão com o grupo Olopunga e de capoeira com o grupo Capoarte. “Nos unimos pelo Baixo Sul, aqui mostramos nossas tradições. Sonhávamos com isso e agora está se tornando realidade”, destaca Walmorio do Rosário, Presidente do Zambiapunga de Nilo Peçanha.

Segundo Liliana Leite, Diretora Executiva do Ides, o Roteiro de Turismo Ecoétnico é o primeiro passo para consolidar uma prática diferenciada. “O turismo de sol e praia já está materializado na região. Precisamos aproximar os visitantes da cultura local e fortalecer o protagonismo comunitário, com o desenvolvimento de uma consciência que traz como base estruturante a sociobiodiversidade”, argumenta. “Buscamos o convívio harmônico com a natureza, com preservação da identidade cultural dentro de um processo produtível e sustentável para, dessa forma, consolidar o agroecoturismo e proporcionar renda complementar para a unidade-família”, acrescenta.


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